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Do leite fresco ao condensado foi um pulo. Inventado nos Estados Unidos, desembarcou na Europa em 1866, quando foi fundada na Suíça a Anglo-Swiss Condensed Milk Company. Após anos competindo com a também suíça Nestlé, as duas empresas fundiram-se e passaram a exportar o leite condensado. No Brasil, ficou conhecido como o “leite da moça”, em referência à camponesa que ilustra o rótulo do produto. Batizado então de Leite Moça, tornou-se líder de mercado e ingrediente quase obrigatório de sobremesas nacionais.
Uma delas, de tão intuitiva, surpreende por não ter sido inventada antes. Mas é fato: colocar na panela leite condensado, chocolate em pó e um punhado de manteiga é idéia genuinamente brasileira. A receita não deixa espaço para recusas - delicioso em sua simplicidade, o docinho reina absoluto em festinhas infantis, almoço de vovós e crises de TPM.
Inicialmente, era chamado “negrinho”, em alusão à massa escura (até hoje os gaúchos o denominam assim). Uma história recorrente para a mudança de nome versa sobre a disputa presidencial entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, Brigadeiro da Aeronáutica, em 1945. O slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro” não rendeu votos suficientes a Gomes, mas a beleza do candidato agradou as mulheres. No Rio de Janeiro, algumas preparavam “negrinhos” em casa e os vendiam na rua com o nome de brigadeiro, destinando o dinheiro ao fundo de campanha.
Embora rebatizada no Rio, a receita provavelmente tem origem paulista, tendo em vista que seus ingredientes básicos eram elaborados no Estado. Em 1921 a Nestlé abriu em Araras a fábrica número um no Brasil. No mesmo ano começou a funcionar no bairro da Mooca, em São Paulo, uma renomada indústria de chocolates, a Gardano, que fabricava chocolate em pó. Conhecido entre consumidores como “chocolate dos padres”, o produto trazia na embalagem uma tela do pintor toscano Alessandro Sani, do século XIX, na qual dois simpáticos monges católicos aparecem provando o conteúdo de uma panela. A Gardano foi incorporada pela Nestlé, mas o desenho dos monges permaneceu na embalagem, agora com o nome Chocolate em Pó Solúvel Nestlé. Antigas receitas de brigadeiro recomendavam “chocolate dos padres” e Leite Moça.
Prática
Embora simples, o preparo do brigadeiro requer alguns cuidados. Para iniciantes (considerando que exista isso no caso do brigadeiro), o mais chato de acertar é o ponto. Proprietária da confeitaria Goulashe, Bernardeth Frota dá a dica: quando a massa começa a despregar da lateral da panela, já está pronta. “É preciso mexer sempre, com agilidade, raspando as bordas e o fundo da panela. O ideal, para uma lata de leite condensado, é fogo médio. Se cozinhar em chama alta ou em panela de fundo fino, pode queimar ou ficar duro”, avisa.
O brigadeiro não pode ser mole ou duro demais. No entanto, há duas consistências possíveis. O de bolinha é mais firme em relação ao de colher, por isso deve cozinhar mais tempo. “Leva em torno de cinco minutos até começar a despregar da panela. Para enrolar as bolinhas, precisa deixar mais um pouco no fogo, até começar a pregar no fundo. Aí tira”, explica Evelyn Vale, proprietária da Evelyn Patisserie.
As duas profissionais utilizam chocolate em pó com 50% de cacau na composição. “Um chocolate de boa qualidade é fundamental. Quanto à manteiga, o ideal é com baixo teor ou sem sal. Na loja utilizamos margarina”, observa Frota. Outra dica importante revelada pelas duas é untar o recipiente com manteiga antes de despejar o brigadeiro. “Isso evita que o doce grude e facilita na hora de enrolar”, explica Vale.
Por fim, um detalhe importante: a cobertura com granulado de chocolate. “Se quiser variar, pode colocar pistache ou raspas de chocolate. Fica sofisticado”, ensina Frota.
Gourmet
O brigadeiro é, aliás, um doce que se presta a muitas variações. Os puristas podem torcer o nariz, mas alguns resultados revelam-se bem interessantes. Recheios de nozes, frutas, chocolate branco no lugar do tradicional e coberturas diversas enriquecem a receita. Já o brigadeiro de colher rende cobertura para tortas e bolos, compor sorvetes, mousses, pudins e inúmeras sobremesas.
Em São Paulo a paixão pelo brigadeiro levou a jornalista Juliana Motter a abandonar a profissão e inaugurar a Ateliê Maria Brigadeiro, primeiro espaço da capital dedicado exclusivamente à degustação e encomenda do clássico doce brasileiro. Combinando blends dos melhores chocolates do mundo com segredos de família e técnicas de patisserie, a doceira (que também é formada em gastronomia) elevou o “negrinho” à categoria gourmet, criando mais de 30 receitas exclusivas e sofisticadas.
O Ateliê recebe os clientes com hora marcada para degustar receitas e conhecer o processo de criação. Os pedidos também podem ser feitos pelo telefone (recomenda-se pelo menos um dia de antecedência). As opções vão das clássicas até as mais exóticas. Entre as primeiras, o brigadeiro Tradicional (chocolate ao leite especial), o Branco (chocolate branco especial) e o Noir (chocolate amargo com 75% de cacau). Há ainda brigadeiro com menta, com pistache, com coco, com pinoli italiano, com vinho do porto, rum ou conhaque até brigadeiro com raiz forte, gergelim e gengibre!
A loja dispõe de kits com brigadeiros sortidos, cujas embalagens são um mimo à parte: merendeiras de metal embrulhadas com poá rosa, verde ou floral. Sem esquecer o delicioso brigadeiro de colher, que vem em potinho decorado com uma colher amarrada.
Considerado por muitos a “trufa brasileira”, o brigadeiro ganhou merecido lugar de destaque e passou das mesas de festas infantis às patisseries e casas especializadas como a de Motter. Tanto que recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C). Não sabia? Veja aí embaixo!
SUCESSO
´Brigadeiro´ branco leva leite condensado e manteiga (chocolate branco é opcional). Com essa base é possível fazer novos doces.
Para deixar o brigadeiro mais leve, pode-se acrescentar creme de leite quando a mistura começar a encorpar (cerca de meia lata de creme para cada uma de leite condensado).
Para incrementar o sabor do brigadeiro, pode-se acrescentar especiarias (como baunilha), temperos ou bebidas alcoólicas. Mexa sempre com colher de pau, de silicone ou com fouet.
Para armazenar o brigadeiro de colher, utilize um recipiente de vidro esterilizado (mergulhe em água fervente por alguns minutos) e bem fechado.
Se preparado em fogo muito alto ou com movimento não uniforme, o açúcar do leite condensado carameliza e forma bolinhas na massa.
FIQUE POR DENTRO - Selado e aprovado para comilança
De tão brasileiro, o brigadeiro recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C), uma certificação que atesta a autenticidade de determinado produto a partir da utilização de ingredientes e regras de preparo específicos. Queijos e vinhos produzidos na França, por exemplo, são famosos por suas Denominações de Origem, que os torna mercadorias respeitadas e apreciadas no mundo inteiro. O único produto do Brasil que também tem D.O.C é o sanduíche Bauru.
Para receber a Denominação, o brigadeiro deve ser feito em território nacional com chocolate em pó, manteiga e leite condensado - brasileiro, da Nestlé. Adicionais como gema de ovo (acelera o ponto), achocolatados (mais doces, em geral), e margarina (também altera o sabor), podem render excelentes brigadeiros, mas não são D.O.C.
A cobertura deve ser exclusivamente de chocolate granulado. A bolinha precisa ter três centímetros de diâmetro, para caber em formas nº 5 e pesar cerca de 25 g. Esse cuidado permite degustar o brigadeiro em uma só mordida. se mesmo assim o cidadão resolver morder, o doce deve ter consistência meio ´puxa-puxa´.
Dentro da boca, precisa derreter, sem grudar no dente. Deve ainda ser servido à temperatura ambiente (desde que não esteja calor demais). Na geladeira, o brigadeiro fica duro.
MAIS INFORMAÇÕES:
- Goulashe R. Des. Leite Albuquerque, 250, Aldeota. Fone: 3261-6150.
- Evelyn Patisserie R. Paula Ney, 535, Aldeota. Fone: 3224-4067.
- Maria Brigadeiro R. Cristiano Viana, 67, casa 11, Cerqueira César. Fone: (11) 3085-3687.
ADRIANA MARTINS
Repórter
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A cozinha do Brasil tem cara de quê? Caipirinha, feijoada, mandioca. E chocolate? Pois saiba que parte da mesa - ou melhor, da sobremesa - do país tem a cor do cacau, muito embora a origem do alimento passe longe daqui, nas civilizações pré-colombianas do México. Com a chegada das naus européias à América, o chocolate seguiu para o velho continente, onde fez par com o leite e mudou a história da gastronomia mundial.
Do leite fresco ao condensado foi um pulo. Inventado nos Estados Unidos, desembarcou na Europa em 1866, quando foi fundada na Suíça a Anglo-Swiss Condensed Milk Company. Após anos competindo com a também suíça Nestlé, as duas empresas fundiram-se e passaram a exportar o leite condensado. No Brasil, ficou conhecido como o “leite da moça”, em referência à camponesa que ilustra o rótulo do produto. Batizado então de Leite Moça, tornou-se líder de mercado e ingrediente quase obrigatório de sobremesas nacionais.
Uma delas, de tão intuitiva, surpreende por não ter sido inventada antes. Mas é fato: colocar na panela leite condensado, chocolate em pó e um punhado de manteiga é idéia genuinamente brasileira. A receita não deixa espaço para recusas - delicioso em sua simplicidade, o docinho reina absoluto em festinhas infantis, almoço de vovós e crises de TPM.
Inicialmente, era chamado “negrinho”, em alusão à massa escura (até hoje os gaúchos o denominam assim). Uma história recorrente para a mudança de nome versa sobre a disputa presidencial entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, Brigadeiro da Aeronáutica, em 1945. O slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro” não rendeu votos suficientes a Gomes, mas a beleza do candidato agradou as mulheres. No Rio de Janeiro, algumas preparavam “negrinhos” em casa e os vendiam na rua com o nome de brigadeiro, destinando o dinheiro ao fundo de campanha.
Embora rebatizada no Rio, a receita provavelmente tem origem paulista, tendo em vista que seus ingredientes básicos eram elaborados no Estado. Em 1921 a Nestlé abriu em Araras a fábrica número um no Brasil. No mesmo ano começou a funcionar no bairro da Mooca, em São Paulo, uma renomada indústria de chocolates, a Gardano, que fabricava chocolate em pó. Conhecido entre consumidores como “chocolate dos padres”, o produto trazia na embalagem uma tela do pintor toscano Alessandro Sani, do século XIX, na qual dois simpáticos monges católicos aparecem provando o conteúdo de uma panela. A Gardano foi incorporada pela Nestlé, mas o desenho dos monges permaneceu na embalagem, agora com o nome Chocolate em Pó Solúvel Nestlé. Antigas receitas de brigadeiro recomendavam “chocolate dos padres” e Leite Moça.
Prática
Embora simples, o preparo do brigadeiro requer alguns cuidados. Para iniciantes (considerando que exista isso no caso do brigadeiro), o mais chato de acertar é o ponto. Proprietária da confeitaria Goulashe, Bernardeth Frota dá a dica: quando a massa começa a despregar da lateral da panela, já está pronta. “É preciso mexer sempre, com agilidade, raspando as bordas e o fundo da panela. O ideal, para uma lata de leite condensado, é fogo médio. Se cozinhar em chama alta ou em panela de fundo fino, pode queimar ou ficar duro”, avisa.
O brigadeiro não pode ser mole ou duro demais. No entanto, há duas consistências possíveis. O de bolinha é mais firme em relação ao de colher, por isso deve cozinhar mais tempo. “Leva em torno de cinco minutos até começar a despregar da panela. Para enrolar as bolinhas, precisa deixar mais um pouco no fogo, até começar a pregar no fundo. Aí tira”, explica Evelyn Vale, proprietária da Evelyn Patisserie.
As duas profissionais utilizam chocolate em pó com 50% de cacau na composição. “Um chocolate de boa qualidade é fundamental. Quanto à manteiga, o ideal é com baixo teor ou sem sal. Na loja utilizamos margarina”, observa Frota. Outra dica importante revelada pelas duas é untar o recipiente com manteiga antes de despejar o brigadeiro. “Isso evita que o doce grude e facilita na hora de enrolar”, explica Vale.
Por fim, um detalhe importante: a cobertura com granulado de chocolate. “Se quiser variar, pode colocar pistache ou raspas de chocolate. Fica sofisticado”, ensina Frota.
Gourmet
O brigadeiro é, aliás, um doce que se presta a muitas variações. Os puristas podem torcer o nariz, mas alguns resultados revelam-se bem interessantes. Recheios de nozes, frutas, chocolate branco no lugar do tradicional e coberturas diversas enriquecem a receita. Já o brigadeiro de colher rende cobertura para tortas e bolos, compor sorvetes, mousses, pudins e inúmeras sobremesas.
Em São Paulo a paixão pelo brigadeiro levou a jornalista Juliana Motter a abandonar a profissão e inaugurar a Ateliê Maria Brigadeiro, primeiro espaço da capital dedicado exclusivamente à degustação e encomenda do clássico doce brasileiro. Combinando blends dos melhores chocolates do mundo com segredos de família e técnicas de patisserie, a doceira (que também é formada em gastronomia) elevou o “negrinho” à categoria gourmet, criando mais de 30 receitas exclusivas e sofisticadas.
O Ateliê recebe os clientes com hora marcada para degustar receitas e conhecer o processo de criação. Os pedidos também podem ser feitos pelo telefone (recomenda-se pelo menos um dia de antecedência). As opções vão das clássicas até as mais exóticas. Entre as primeiras, o brigadeiro Tradicional (chocolate ao leite especial), o Branco (chocolate branco especial) e o Noir (chocolate amargo com 75% de cacau). Há ainda brigadeiro com menta, com pistache, com coco, com pinoli italiano, com vinho do porto, rum ou conhaque até brigadeiro com raiz forte, gergelim e gengibre!
A loja dispõe de kits com brigadeiros sortidos, cujas embalagens são um mimo à parte: merendeiras de metal embrulhadas com poá rosa, verde ou floral. Sem esquecer o delicioso brigadeiro de colher, que vem em potinho decorado com uma colher amarrada.
Considerado por muitos a “trufa brasileira”, o brigadeiro ganhou merecido lugar de destaque e passou das mesas de festas infantis às patisseries e casas especializadas como a de Motter. Tanto que recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C). Não sabia? Veja aí embaixo!
SUCESSO
´Brigadeiro´ branco leva leite condensado e manteiga (chocolate branco é opcional). Com essa base é possível fazer novos doces.
Para deixar o brigadeiro mais leve, pode-se acrescentar creme de leite quando a mistura começar a encorpar (cerca de meia lata de creme para cada uma de leite condensado).
Para incrementar o sabor do brigadeiro, pode-se acrescentar especiarias (como baunilha), temperos ou bebidas alcoólicas. Mexa sempre com colher de pau, de silicone ou com fouet.
Para armazenar o brigadeiro de colher, utilize um recipiente de vidro esterilizado (mergulhe em água fervente por alguns minutos) e bem fechado.
Se preparado em fogo muito alto ou com movimento não uniforme, o açúcar do leite condensado carameliza e forma bolinhas na massa.
FIQUE POR DENTRO - Selado e aprovado para comilança
De tão brasileiro, o brigadeiro recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C), uma certificação que atesta a autenticidade de determinado produto a partir da utilização de ingredientes e regras de preparo específicos. Queijos e vinhos produzidos na França, por exemplo, são famosos por suas Denominações de Origem, que os torna mercadorias respeitadas e apreciadas no mundo inteiro. O único produto do Brasil que também tem D.O.C é o sanduíche Bauru.
Para receber a Denominação, o brigadeiro deve ser feito em território nacional com chocolate em pó, manteiga e leite condensado - brasileiro, da Nestlé. Adicionais como gema de ovo (acelera o ponto), achocolatados (mais doces, em geral), e margarina (também altera o sabor), podem render excelentes brigadeiros, mas não são D.O.C.
A cobertura deve ser exclusivamente de chocolate granulado. A bolinha precisa ter três centímetros de diâmetro, para caber em formas nº 5 e pesar cerca de 25 g. Esse cuidado permite degustar o brigadeiro em uma só mordida. se mesmo assim o cidadão resolver morder, o doce deve ter consistência meio ´puxa-puxa´.
Dentro da boca, precisa derreter, sem grudar no dente. Deve ainda ser servido à temperatura ambiente (desde que não esteja calor demais). Na geladeira, o brigadeiro fica duro.
MAIS INFORMAÇÕES:
- Goulashe R. Des. Leite Albuquerque, 250, Aldeota. Fone: 3261-6150.
- Evelyn Patisserie R. Paula Ney, 535, Aldeota. Fone: 3224-4067.
- Maria Brigadeiro R. Cristiano Viana, 67, casa 11, Cerqueira César. Fone: (11) 3085-3687.
ADRIANA MARTINS
Repórter
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A cozinha do Brasil tem cara de quê? Caipirinha, feijoada, mandioca. E chocolate? Pois saiba que parte da mesa - ou melhor, da sobremesa - do país tem a cor do cacau, muito embora a origem do alimento passe longe daqui, nas civilizações pré-colombianas do México. Com a chegada das naus européias à América, o chocolate seguiu para o velho continente, onde fez par com o leite e mudou a história da gastronomia mundial.
Do leite fresco ao condensado foi um pulo. Inventado nos Estados Unidos, desembarcou na Europa em 1866, quando foi fundada na Suíça a Anglo-Swiss Condensed Milk Company. Após anos competindo com a também suíça Nestlé, as duas empresas fundiram-se e passaram a exportar o leite condensado. No Brasil, ficou conhecido como o “leite da moça”, em referência à camponesa que ilustra o rótulo do produto. Batizado então de Leite Moça, tornou-se líder de mercado e ingrediente quase obrigatório de sobremesas nacionais.
Uma delas, de tão intuitiva, surpreende por não ter sido inventada antes. Mas é fato: colocar na panela leite condensado, chocolate em pó e um punhado de manteiga é idéia genuinamente brasileira. A receita não deixa espaço para recusas - delicioso em sua simplicidade, o docinho reina absoluto em festinhas infantis, almoço de vovós e crises de TPM.
Inicialmente, era chamado “negrinho”, em alusão à massa escura (até hoje os gaúchos o denominam assim). Uma história recorrente para a mudança de nome versa sobre a disputa presidencial entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, Brigadeiro da Aeronáutica, em 1945. O slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro” não rendeu votos suficientes a Gomes, mas a beleza do candidato agradou as mulheres. No Rio de Janeiro, algumas preparavam “negrinhos” em casa e os vendiam na rua com o nome de brigadeiro, destinando o dinheiro ao fundo de campanha.
Embora rebatizada no Rio, a receita provavelmente tem origem paulista, tendo em vista que seus ingredientes básicos eram elaborados no Estado. Em 1921 a Nestlé abriu em Araras a fábrica número um no Brasil. No mesmo ano começou a funcionar no bairro da Mooca, em São Paulo, uma renomada indústria de chocolates, a Gardano, que fabricava chocolate em pó. Conhecido entre consumidores como “chocolate dos padres”, o produto trazia na embalagem uma tela do pintor toscano Alessandro Sani, do século XIX, na qual dois simpáticos monges católicos aparecem provando o conteúdo de uma panela. A Gardano foi incorporada pela Nestlé, mas o desenho dos monges permaneceu na embalagem, agora com o nome Chocolate em Pó Solúvel Nestlé. Antigas receitas de brigadeiro recomendavam “chocolate dos padres” e Leite Moça.
Prática
Embora simples, o preparo do brigadeiro requer alguns cuidados. Para iniciantes (considerando que exista isso no caso do brigadeiro), o mais chato de acertar é o ponto. Proprietária da confeitaria Goulashe, Bernardeth Frota dá a dica: quando a massa começa a despregar da lateral da panela, já está pronta. “É preciso mexer sempre, com agilidade, raspando as bordas e o fundo da panela. O ideal, para uma lata de leite condensado, é fogo médio. Se cozinhar em chama alta ou em panela de fundo fino, pode queimar ou ficar duro”, avisa.
O brigadeiro não pode ser mole ou duro demais. No entanto, há duas consistências possíveis. O de bolinha é mais firme em relação ao de colher, por isso deve cozinhar mais tempo. “Leva em torno de cinco minutos até começar a despregar da panela. Para enrolar as bolinhas, precisa deixar mais um pouco no fogo, até começar a pregar no fundo. Aí tira”, explica Evelyn Vale, proprietária da Evelyn Patisserie.
As duas profissionais utilizam chocolate em pó com 50% de cacau na composição. “Um chocolate de boa qualidade é fundamental. Quanto à manteiga, o ideal é com baixo teor ou sem sal. Na loja utilizamos margarina”, observa Frota. Outra dica importante revelada pelas duas é untar o recipiente com manteiga antes de despejar o brigadeiro. “Isso evita que o doce grude e facilita na hora de enrolar”, explica Vale.
Por fim, um detalhe importante: a cobertura com granulado de chocolate. “Se quiser variar, pode colocar pistache ou raspas de chocolate. Fica sofisticado”, ensina Frota.
Gourmet
O brigadeiro é, aliás, um doce que se presta a muitas variações. Os puristas podem torcer o nariz, mas alguns resultados revelam-se bem interessantes. Recheios de nozes, frutas, chocolate branco no lugar do tradicional e coberturas diversas enriquecem a receita. Já o brigadeiro de colher rende cobertura para tortas e bolos, compor sorvetes, mousses, pudins e inúmeras sobremesas.
Em São Paulo a paixão pelo brigadeiro levou a jornalista Juliana Motter a abandonar a profissão e inaugurar a Ateliê Maria Brigadeiro, primeiro espaço da capital dedicado exclusivamente à degustação e encomenda do clássico doce brasileiro. Combinando blends dos melhores chocolates do mundo com segredos de família e técnicas de patisserie, a doceira (que também é formada em gastronomia) elevou o “negrinho” à categoria gourmet, criando mais de 30 receitas exclusivas e sofisticadas.
O Ateliê recebe os clientes com hora marcada para degustar receitas e conhecer o processo de criação. Os pedidos também podem ser feitos pelo telefone (recomenda-se pelo menos um dia de antecedência). As opções vão das clássicas até as mais exóticas. Entre as primeiras, o brigadeiro Tradicional (chocolate ao leite especial), o Branco (chocolate branco especial) e o Noir (chocolate amargo com 75% de cacau). Há ainda brigadeiro com menta, com pistache, com coco, com pinoli italiano, com vinho do porto, rum ou conhaque até brigadeiro com raiz forte, gergelim e gengibre!
A loja dispõe de kits com brigadeiros sortidos, cujas embalagens são um mimo à parte: merendeiras de metal embrulhadas com poá rosa, verde ou floral. Sem esquecer o delicioso brigadeiro de colher, que vem em potinho decorado com uma colher amarrada.
Considerado por muitos a “trufa brasileira”, o brigadeiro ganhou merecido lugar de destaque e passou das mesas de festas infantis às patisseries e casas especializadas como a de Motter. Tanto que recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C). Não sabia? Veja aí embaixo!
SUCESSO
´Brigadeiro´ branco leva leite condensado e manteiga (chocolate branco é opcional). Com essa base é possível fazer novos doces.
Para deixar o brigadeiro mais leve, pode-se acrescentar creme de leite quando a mistura começar a encorpar (cerca de meia lata de creme para cada uma de leite condensado).
Para incrementar o sabor do brigadeiro, pode-se acrescentar especiarias (como baunilha), temperos ou bebidas alcoólicas. Mexa sempre com colher de pau, de silicone ou com fouet.
Para armazenar o brigadeiro de colher, utilize um recipiente de vidro esterilizado (mergulhe em água fervente por alguns minutos) e bem fechado.
Se preparado em fogo muito alto ou com movimento não uniforme, o açúcar do leite condensado carameliza e forma bolinhas na massa.
FIQUE POR DENTRO - Selado e aprovado para comilança
De tão brasileiro, o brigadeiro recebeu Denominação de Origem Controlada (D.O.C), uma certificação que atesta a autenticidade de determinado produto a partir da utilização de ingredientes e regras de preparo específicos. Queijos e vinhos produzidos na França, por exemplo, são famosos por suas Denominações de Origem, que os torna mercadorias respeitadas e apreciadas no mundo inteiro. O único produto do Brasil que também tem D.O.C é o sanduíche Bauru.
Para receber a Denominação, o brigadeiro deve ser feito em território nacional com chocolate em pó, manteiga e leite condensado - brasileiro, da Nestlé. Adicionais como gema de ovo (acelera o ponto), achocolatados (mais doces, em geral), e margarina (também altera o sabor), podem render excelentes brigadeiros, mas não são D.O.C.
A cobertura deve ser exclusivamente de chocolate granulado. A bolinha precisa ter três centímetros de diâmetro, para caber em formas nº 5 e pesar cerca de 25 g. Esse cuidado permite degustar o brigadeiro em uma só mordida. se mesmo assim o cidadão resolver morder, o doce deve ter consistência meio ´puxa-puxa´.
Dentro da boca, precisa derreter, sem grudar no dente. Deve ainda ser servido à temperatura ambiente (desde que não esteja calor demais). Na geladeira, o brigadeiro fica duro.
MAIS INFORMAÇÕES:
- Goulashe R. Des. Leite Albuquerque, 250, Aldeota. Fone: 3261-6150.
- Evelyn Patisserie R. Paula Ney, 535, Aldeota. Fone: 3224-4067.
- Maria Brigadeiro R. Cristiano Viana, 67, casa 11, Cerqueira César. Fone: (11) 3085-3687.
ADRIANA MARTINS
Repórter